Os últimos dias têm sido de muita preocupação lá para os lados da Padre Cacique. O ano vai se esvaindo com passadas largas, e com ele a impressão de que o Internacional fez uma temporada condizente com o que havia à disposição na casamata. Foi eliminado precocemente na Copa do Brasil para um adversário que joga a vida na última rodada do campeonato, na tentativa de escapar da série C. A façanha de ser eliminado por uma equipe que já havia superado por meio de uma estrondosa goleada de 6 a 1 não chega a ser o apocalipse. Mas a inserção do terceiro fiasco da temporada – uma provável ausência na próxima Libertadores da América – passa a superar até mesmo um prodígio equivalente ao de ser o último colocado num grupo com quatro equipes, e que garantia classificação para os três primeiros – feito ocorrido em 1993.

Não tomei o licor do ódio. Apenas refiz os cálculos de prós e contra da temporada 2021, que deixou novamente o Internacional como apenas um simpático disputante de competições que não tem gana nem qualidade de vencê-las. Aliás, o clube parece ser um bom retiro para atletas medianos. Deve haver entre os boleiros grupos de Whatsapp em que eles mesmo discutem e avaliam o plano de carreira deles. Deve haver um consenso de que o Colorado gaúcho seja um bom lugar para viver em paz. A fórmula é simples: um salário médio com um contrato de razoável duração: não muito longo para o que o clube não tente emprestar e nem tão curto que não dê tempo de ser taxado como dispensável. Ou seja, o jogador médio vai cozinhando a paciência do torcedor aliando sua alienação e desinteresse em evoluir na profissão com a parcimônia dos dirigentes que ficam à mercê de contratos bem amarrados.

 Se o cara conseguir “enganar" por bastante tempo, terá conseguido comprar a quantidade suficiente de imóveis que lhe garanta uma aposentadoria tranquila caso não tenha traquejo com o microfone ou paciência de seguir no meio da bola. Assim, por que ele pensaria diferente se o incômodo jejum de 42 anos sequer faz parte do discurso narrativo da gestão do clube? Estranho seria se fosse diferente disso.

Falando em “engano", gostaria de me posicionar sobre o episódio dos áudios vazados do professor Paulo Paixão. Aliás, após a imediata resposta dos comandados de Aguirre na vitória por 3 a 1 no Maracanã, com gols de Boschilia, Patrick e Victor Cuesta – numa noite inspirada e que coloca o Fluminense, adversário direto, para baixo na tabela –, o septuagenário ex-membro da comissão técnica deveria vir a público e dizer que estava redondamente equivocado. Deveria este senhor, de questionável contribuição ao futebol brasileiro, se retratar diante do grupo multicampeão e colocador de faixas. É inacreditável que este cidadão ainda não tenha se pronunciado diante das inverdades ditas por ele nos áudios para o seu compadre. 

Minha análise sobre o fatídico ocorrido, à parte da perspectiva cínica acima descrita, é de que o clube começa perdendo um dos grandes sustentáculos para o ano que vem. Já disse inúmeras vezes que hombridade é consciência da própria dignidade. Está lá no dicionário. Paulo Paixão talvez não contasse com a divulgação de seu outrora compadre. Porém, há uma pista iluminada à frente, um asfalto sem nenhum buraco na pista. O carioca fez o que tive a oportunidade de fazer no estágio final de minha graduação: uma “avaliação diagnóstica do clima organizacional”. Está lá, basta ouvir com atenção. Ou dá para ficar zoando a desventura do rival, caminho mais fácil e que não necessita muito pensar, bastando apenas o repasse de memes pelo celular.


Rodrigo Rocha


Imagem: Portal FootHub

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