Muito próximo estamos de ver um clube fora do eixo Rio-São Paulo levantar a taça de campeão brasileiro de futebol. É um momento ímpar e que, dada a ineficiência da quarta força do futebol nacional – o Rio Grande do Sul –, levará mais algum tempo para se repetir. Nessa fila de 50 anos, o Galo mineiro já ficou com fome, já passou mal, já ficou com sede, já se sentou na cadeira de praia improvisada, já se deitou no chão frio de papelão e comeu pão de queijo até pegar no sono. Para a alegria dos atleticanos – segundo consta, maioria em Minas – a espera termina para pelo menos umas duas gerações de torcedores.

Infelizmente, tirando as fracassadas gestões de Botafogo, Vasco da Gama e Cruzeiro – este último, o mais inacreditável deles –, dos doze queridinhos do país, o Internacional será o clube com o maior jejum de conquistas do tal campeonato de pontos corridos. Não refiro aqui o Grêmio porque este já está se despedindo da elite – é outro assunto, mas de semelhante contexto.

O Cruzeiro foi campeão “ontem”, praticamente.  Aliás, bicampeão em 2013 e 2014. O Vasco levou a melhor pela última vez quando cedia a arquibancada lotada diante do São Caetano, isso em 2000. O Botafogo levou a taça em 1995 – na primeira final manchada pela arbitragem de Márcio Rezende de Freitas. Portanto são 7, 21 e 26 anos, respectivamente. Isso se a conta estiver certa, pois não sei onde deixei minha calculadora científica.

Eu não sei nem nominar o nível de incompetência dos gaúchos na competição. O Grêmio quando teve um elenco competitivo abdicou do campeonato para brigar por torneios de mata-mata. O Internacional, nem na última década de glória conseguiu dar fim ao incômodo jejum. Desse modo, já podemos afirmar que a régua aparentemente baixou por aqui. Ano após ano ambos têm sido ilustres figurantes. Funciona assim: para que haja a impressão de que são competitivos, costumam fazer grandes jogos para seu torcedor – nostálgico e afetuoso por natureza – não esquecer. Ah, não fomos campeões, mas ganhamos de vocês. Ah, o meu time passou o carro no São Paulo. O meu tricolor jogando em casa é osso duro, a Arena é um caldeirão... e coisas do tipo. Ficamos com o 5 a 1 no Morumbi, o 1 a 0 no Galo “sabendo sofrer" no Beira-Rio... Para o ano que vem, vamos lembrar do 4 a 0 contra o Flamengo em pleno Maracanã. E assim vamos ano após ano. Taça no armário? Xiii... aí tu já quer demais.

No fim de semana, assisti com minha filha a animação “Os pinguins de Madagascar". Na aventura, Kovalski, Rico, Capitão e Recruta se juntam à agência de espionagem “Vento do Norte” para impedir que o vilão Otavius Brine domine o mundo. Diante de situações de tensão o Capitão costuma pedir um relatório preciso para o momento. Após escaparem do “velho navio" e dos leopardos do mar, o Capitão pede ao seu comandado um panorama atualizado de suas possibilidades. Kovalski responde: há 95% de certeza que a gente já era. E quanto aos outros 5%? Aventura e glória.

Fiquei com isso na cabeça. O Internacional se resume aos 5% de tudo que é incerto. Um misto de “vamos deixar como é que tá pra ver como é que fica" associado a um planejamento que delegou a um semiamador o patrimônio de um clube gigantesco, Ramirez, e que terminou de modo melancólico uma temporada que se anunciava como a afirmação para a conquista de alguma coisa. A régua foi elevada para 2021 em virtude de tudo que Abel Braga fez por aqui, e volta a descer para os meios de tabela uma vez que já não se tem tanta certeza sobre o atual elenco. Perderemos Yuri – esta parece ser uma indesejável certeza. Outra certeza? Que o Internacional é forte candidato para 2022 a permanecer na mesma fila em que agoniza há 42 anos. O bom dos anos 90 é que entrávamos em férias em outubro. Agora, passamos vergonha até a última rodada de dezembro. 

Rodrigo Rocha

Imagem: site Ta Colado

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