Estou lendo “O esplendor da vida". Apoiado em depoimentos, achados escritos e outros materiais, o alemão Michael Kumpfmüller narra em seu inspirado livro os últimos meses de vida de Franz Kafka, um dos mais importantes escritores da era moderna. A narrativa é lenta, intimista, bucólica, ingênua e ao mesmo tempo dramática.

Ainda que esteja falando do fascinante livro, a descrição poderia facilmente amoldar-se ao que temos visto pelos lados do Humaitá durante estes últimos suspiros na primeira divisão do campeonato brasileiro. Há elementos que cortam a alma gremista com lâminas de fogo; gol anulado no Mineirão, gol anulado na Arena, derrota no Grenal, além de um festival interminável de declarações infelizes de seus dirigentes. E nem coloquei nessa conta o jornalista aquele, que vira meme a cada fracasso azul.

Na Áustria, a tuberculose lentamente interrompeu a vida de Kafka. Por aqui, parece que a ausência de discernimento entre os tricolores tem arrancado deles o bom critério e aquilo que é tão fácil de perceber: o Grêmio será rebaixado porque foi rebaixável o ano todo, e não por causa do caixão do Patrick, não porque Moisés e Tiago Santos quase se beijam quando se encaram na confusão do clássico Grenal. Não porque o Internacional entregou para o Juventude. Aliás, se esta afirmação fosse minimamente verossímil, após o final da partida – em que teve uns 91 por cento de pênalti em Rodrigo Dourado –, os colorados iriam sorrir e abraçar os rivais tal qual Renato Portaluppi fizera na Arena diante  do Flamengo naqueles 2 a 4. Fosse comprovado o suposto entreguismo, isto seria um verdadeiro embuste.

Tudo muito compreensível. O futuro gremista é como seu presente: apreensão, dor, angústia, raiva silenciosa, ódio gratuito e alienação. Na tabela encontra-se o seu sepulcro. E a não aceitação de que seu terceiro rebaixamento é eminente casa com a também negação de que os cinco anos na crista da onda chegaram ao fim. Lembrarão até a última geração que Kannemann e Geromel, por muito tempo festejados, serão eternizados também na galeria em que já se encontram as duplas João Marcelo e Vilson e Baloy e Claudiomiro – todos devidamente marcados “na paleta".

E nesse momento, o veneno tóxico da rivalidade Grenal faz com que parte de sua torcida acredite em “pé mole" no Alfredo Jaconi. Mas foi só fragilidade mesmo. E incompetência para vencer outro rebaixado, o Juventude. Jogadores que foram bem no Grenal, ausentes por lesões e suspensões, o colorado foi comum, insuficiente. Até achei que Bruno Arleu de Araújo fosse dar tiro livre indireto no lance da “chegada” do goleiro Douglas, já que a regra prevê isso se o lance for perigoso mas sem contato. Foi o que li uma vez, não sei. No entanto, o arqueiro do Juventude definitivamente acertou alguma coisa ali. Mas enfim, três pontos para o time de verde, zero para o vermelho. Para os azuis, a “morte" simbólica de um clube superavitário parece ser “kafkiana", termo que costuma designar situações sociais absurdas, grotescas e angustiantes. Kafka, debilitado, apegou-se à simplicidade e à bondade da vida antes de expirar. Boa lição para quem venera estátuas em Porto Alegre, ou seja, um estado de aceitação. E isso pode ser definido como o ato de contemplar o fim com dignidade todos os dias.

Rodrigo Rocha

Imagem: Notícias Inter

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