Eu sempre gostei de grafar o nome do clássico com letra maiúscula. Curioso que sempre que tenho alguma dúvida sobre nossa língua eu pesquiso com afinco sobre ela. Às vezes, uma palavra passa batida, um erro de concordância, um emprego de vírgula, enfim. Isso faz parte para quem escreve quanto as finalizações para um atacante: nem todas as investidas vão morrer nas redes adversárias.

 Mas atrevo-me a dizer que até hoje eu não sei o certo sobre o termo trazido – ou “imortalizado” –, já que a paternidade do termo parece ser do gremista Ivo dos Santos Martins – perpetuado há quase um século. No fundo, no fundo mesmo, não importa. Grenal é mais que uma designação, mais do que uma manifestação social ou uma descrição desportiva. Grenal é maiúsculo, é superlativo, em letras garrafais, com cores berrantes. 

Para o clássico que se avizinha, não é preciso forçar a retórica para dizer que este é o maior da década, mesmo que ela esteja apenas no início. Deixe-me explicar. A década passada iniciou com Paulo Roberto Falcão e Renato Portaluppi à beira do gramado: deu Inter nos pênaltis. Após um hiato de dois anos sem disputarem uma final, a dupla volta a se enfrentar na serra: colorado supera o rival na final regional de 2014. Ano seguinte, Aguirre vence Felipão. Até aqui, supremacia vermelha. Então, vem a segunda metade da década e o Grêmio vira a gangorra outra vez. Por sinal, ela termina com dois enfrentamentos internacionais: empate tumultuado com oito expulsões. Em seguida, vitória tricolor com portões fechados no Beira-Rio por conta da pandemia.

Naturalmente, o clássico deste 6 de novembro é mais importante para o Grêmio por conta do que está em jogo: sua permanência na elite do futebol brasileiro. Para o lado vermelho, somente uma catástrofe tira o clube de sua 15° participação na Copa Libertadores da América. Desse modo, o jogo de sábado seria um amistoso descompromissado. Mas vai dizer isso para o torcedor que quer o rival agonizando na série B pela terceira vez. Não se negocia paixão pelas bandas do Rio Grande. Não há como flertar com a indiferença ao clássico, especialmente pelos insucessos dos últimos anos. O torcedor colorado anseia pelo seu primeiro título na década: ver Jaminton Leandro Campaz, a maior contratação azul da história – do superavitário time de Romildo Bolzan –, subir à Belém do Pará para enfrentar o Clube do Remo.

A maior rivalidade entre clubes de futebol do país*** terá mais um capítulo em sua centenária história. O Beira-Rio não terá o silêncio triste daquela derrota de Libertadores, em que o atual reserva de Otavinho no Porto – Pepê – triunfou em seu particular dia de glória. Não gosto da palavra vingança, mas, parece que aquelas vozes emudecidas (por razões justas) se transferem para este momentoso acerto de contas, para, em uníssono, gritar e narrar o declínio acelerado de um clube que se fez vitorioso – mas que nos últimos anos viveu de discursos ufanistas capitaneados por sua estátua de bronze na busca vaidosa de se manter no topo. O imortal perecerá pela espada da vingança? Não sei, mas pelo indicativo simples de um conhecido provérbio “antes da soberba vem a derrocada", parece ser um desfecho não descartado.

O cenário aponta isso, apesar da recuperação técnica e anímica do Mineirão: derrota tricolor e êxtase do povo vermelho. Porém, é preciso combinar com aqueles que nada mais têm a perder: o próprio Grêmio. O tricolor será o mais difícil adversário a ser batido no Beira-Rio, mais que o Flamengo. Orgulho vermelho ferido, por um lado, pela desvantagem recente em clássicos. Orgulho azul abalado, por outro, pelo momento e pela certeza da sangria na reta final do campeonato, até a última gota.

Em tempo: notaram os três asteriscos algumas linhas atrás? Pois então. É bem verdade que minha tese de que o Corínthians seja o maior rival do Internacional é jovem. Ela tem apenas uma década. E a mantenho mesmo que Internacional e Grêmio já tenham se enfrentado, por exemplo, em Copa Sulamericana e Libertadores da América. Mas os rivais citadinos não tem duas finais nacionais na bagagem. Meu critério não é tão reducionista assim, mas envolve outros pontos – assunto para outra ocasião.

 Portanto, mesmo que Porto Alegre esteja em franca ebulição, o Grenal para mim é apenas uma partida de três pontos – inclusive para alcançar o próprio Corínthians na tabela. No entanto, minha visão peculiar do clássico sulista não invalida de modo algum a primeira frase que você leu, lá em cima, que dá título a este texto: indubitavelmente estamos diante do Grenal da década!

Rodrigo Rocha


Imagem: ClicRBS

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