O discurso pode ser forte no microfone. A imprensa pode ser uma das mais ferozes com seu tom ácido e crítica mordaz. O museu dos clubes podem estar abarrotados de glórias passadas. Podem ter um quadro social invejável e uma estrutura modernizada na base. Pode formar craques gastando pouco e vender a peso de ouro. Podem homenagear com estátuas de bronze figuras importantes de sua história. Porém, nada disso foi, é ou será capaz de dar ao Rio Grande do Sul um título nacional por meio do Brasileirão de pontos corridos. Extraordinária conclusão? Não fosse apenas pertinente, essa visão derrotista passaria por excesso, conformismo ou algum outro adjetivo. Só que não é o caso. 

Para os três representantes gaúchos da série A, isso já é tratado como uma “normalidade de mercado". Pensando pelo lado vermelho, consigo identificar facilmente uma resignação que não me parece muito condizente com a história do clube. Recordo os anos em que o Internacional entrava no páreo muito pressionado pelos anos de jejum. Isso era notável na voz do presidente, na indignação do torcedor, na cobrança hostil do jornalismo local. Hoje, é consenso entre a crônica esportiva que paga seu tributo ordeiramente na ACEG que clubes ricos alternarão anualmente a posse de melhor time da temporada. A verdade é que quase todos cansaram de ver o colorado como “postulante a título” nas páginas daquela revista famosa. Todo ano era assim. Mas o tempo passou. E com ele, temporadas com pontos inacreditavelmente desperdiçados, escândalos de arbitragem e outros fatores de ordem interna que desafiam nossa vã filosofia.

E assim tem sido. A implantação dos pontos corridos trouxe a hegemonia do eixo com apenas um competente intruso: o Cruzeiro, campeão em 2003, 2013 e 2014. No mais, temos Corínthians (4 conquistas), Flamengo e São Paulo (3 títulos), Palmeiras e Fluminense (2 troféus), além do Santos com um caneco no armário. O constrangimento do pampa aumenta se pensarmos na unificação do campeonato brasileiro com os extintos Robertão e a Taça Brasil. É uma pena que não veremos mais uma Portuguesa silenciar o Mineirão duas vezes no mesmo ano. Ou um ousado Goiás chegar com boas campanhas. Eles não levaram, é verdade. E com o formato atual, podem esquecer. 

A discussão sobre a legitimidade do campeão brasileiro, no atual tipo de competição, jamais será assunto. O Flamengo de 2020 era melhor que o Internacional. Perdeu para o São Paulo no último jogo, mas mesmo o pior Flamengo – dos últimos que vimos – foi campeão. Não porque foi o melhor absoluto, mas porque foi o mais regular, apesar de flagrante instabilidade do time e incapacidade de gestão de grupo por parte do seu comandante paranaense.

Infelizmente (e felizmente), esse ano teremos um campeão brasileiro fora do eixo Rio-São Paulo. É a história se retratando com um dos clubes mais prejudicados por arbitragem no futebol nacional. Infelizmente porque queria o colorado quebrando o jejum. Mas, pela ordem, deverá ser os mineiros. Engraçado, olha eu sugerindo justiça... De fato, são 50 anos. Ano que vem, quem sabe, sejamos nós. Mas daí você dirá que estou me contradizendo se botar luz em cima do que disse nas primeiras linhas. É que eu defendo a teoria de que depois que a hegemonia de paulistas e cariocas for quebrada por alguém que não seja o Cruzeiro (que tão cedo não deve voltar pra série A), vai – como disse dias atrás o ex-ministro Ricardo Salles – “passar a boiada".

Sábado, Rodrigo Dourado fazia muito boa partida até ser batido na pedalada de Hulk. Num jogo de tempos distintos, o colorado mais conteve do que controlou o Galo; teve dois bons contra-ataques puxados por Taison com finalizações de Yuri, além da cabeçada de Saravia. A rigor, uma ou outra chance, talvez. Fala-se muito que Diego Aguirre poderia ter buscado alternativas para empatar. Também acho. 

Mas, pensemos: Mohamed Salah deixa Bernardo Silva no chão, dá drible semelhante ao aplicado pelo brutamonte atleticano e faz Laporte comer poeira. Era o 2 a 1 do Liverpool consolidado aos 30 do segundo tempo contra o City de Guardiola, em jogo válido pela sétima rodada do “inglesão" – um dia depois de nossa sexta derrota no campeonato. O egípcio não garantiu a vitória dos red devils porque cinco minutos depois o belga De Bruyne deixaria tudo igual. Sim, qualidade também garante vitórias (empates!), pontos e títulos. Não posso dizer que estou orgulhoso com o resultado em Minas, mas precisamos de uma vez por todas entender que o Internacional perdeu para um respeitável adversário, que, para o bem do futebol nacional, será o campeão brasileiro de 2021. Desportivamente, uma derrota nunca poderá ser aceitável. Mas em nenhum momento o Internacional flertou com a vitória, pois faltou qualidade... no campo e, pelo visto, na casamata. Sobra qualidade no alvinegro mineiro, o que justifica três derrotas em 22 rodadas. Bastando certa dedicação em buscá-las, as verdades sempre aparecem. E sempre são tão simples.

Rodrigo Rocha

Imagens: Colorados Anônimos e Jornal de Beltrão


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